segunda-feira, 1 de julho de 2013

Escolas recrutam professores estrangeiros

Interessado na economia brasileira já há algum tempo, o suíço Per Axelson, que acaba de ser contratado como professor permanente do Ibmec, diz que um período de trabalho no país pode ser inspirador tanto para a vida acadêmica como para o trabalho de consultor.
Por conta disso, aliado a razões pessoais - ele é casado com uma brasileira -, Axelson estava atento a oportunidades em instituições de ensino do país quando se deparou com um anúncio da escola carioca.

Como parte do processo de seleção, Axelson, que tem doutorado em finanças pela Booth School of Business, da Universidade de Chicago, apresentou seu trabalho de pesquisa e se encontrou com alguns professores do Ibmec. "Tive uma impressão muito boa da escola e não hesitei quando recebi a oferta", afirma.

Além do título de PhD obtido em 2008, Axelson tem experiência de mercado, com atuações no setor de consultoria em Boston e Nova York. Ele começou a lecionar no Ibmec há algumas semanas. "Uma experiência como essa, em um mercado relevante e em crescimento, vai me ensinar muito e ainda abrir oportunidades tanto no Brasil quanto no exterior", diz.

Axelson é o primeiro estrangeiro a integrar o corpo permanente de docentes do Ibmec. Antes, a presença de professores de fora se restringia aos visitantes, que vêm para dar uma ou outra aula.

Fernando Schuler, diretor executivo do Ibmec, afirma que o recrutamento do suíço faz parte de uma política de internacionalização da instituição. "Não há como pensar hoje em uma escola de negócios que não seja global."

A seleção de Axelson deu-se através da participação do Ibmec em um evento de recrutamento da American Economic Association, que reúne mais de 18 mil acadêmicos e profissionais de mercado. "Foi a primeira vez que participamos desse job market, mas agora estaremos sempre presentes", diz Schuler. Segundo o diretor do Ibmec, Axelson vai dar aulas na graduação, no mestrado e em cursos de educação executiva de curta duração, além de atuar com pesquisa. Todas disciplinas ministradas no idioma inglês.

O Insper, de São Paulo, também acaba de fechar a contratação de uma professora estrangeira. A portuguesa Carla Ramos começa a dar aulas na escola em agosto. "Se existem tantos talentos no mundo, não faz sentido contratar apenas no Brasil", afirma Sérgio Lazzarini, diretor de pós-graduação stricto sensu do Insper.

A prática de abrir o recrutamento para candidatos de outros países existe no Insper desde 2005. Carla é a terceira estrangeira a integrar o quadro de professores permanentes. "Cada um traz uma bagagem diferente, por isso a vivência dos alunos com esses professores é enriquecedora", diz Lazzarini. Ele conta que o acesso da escola aos estrangeiros se dá, principalmente, através da sua rede de contatos internacional.

Nos últimos anos, Lazzarini observou um crescimento no interesse dos professores de outros países em atuar nas instituições de ensino brasileiras. "A crise americana ajudou um pouco, assim como o aumento do interesse pelos mercados emergentes. Além disso, os salários pagos aqui também se tornaram mais compatíveis com os do exterior", afirma.

Carla, por exemplo, decidiu vir ao Brasil depois de uma experiência de 10 anos em escolas do Reino Unido. Após concluir seu doutorado em administração na Universidade de Bath, ela passou a atuar como pesquisadora e professora da Manchester Business School, onde deu aulas no MBA, no mestrado e no bacharelado. "Há algum tempo eu já pensava na hipótese de trabalhar no Brasil", diz Carla. "Meu interesse pelo país está na expansão de sua economia e na proximidade cultural com Portugal."

Ela conta que ficou sabendo da vaga no Insper através de uma consultoria de recrutamento administrada por uma amiga.

"No momento em que realmente tomei a decisão de me mudar para o Brasil, coincidentemente, o Insper havia aberto uma vaga para atuar em tempo integral na área de marketing. Tive sorte com esse timing", afirma a portuguesa.

O processo de recrutamento, segundo ela, foi rígido. Depois de submeter seu currículo e duas cartas de referência para avaliação, ela foi pré-selecionada para a vaga. Em março, durante uma visita à escola, passou por uma série de entrevistas, apresentou seu trabalho de pesquisa aos acadêmicos do Insper e deu uma aula de 30 minutos. "Acredito que me mudar para o Brasil neste momento significa estar no lugar certo, na hora certa. Trata-se de uma economia em forte crescimento e com boas oportunidades para estudar fenômenos interessantes em minha área de pesquisa, que é relacionada ao business-to-business, redes de negócios e relações comerciais", diz Carla.

Bastante tradicional no país, a Fundação Getulio Vargas (FGV) há alguns anos vem contratando docentes estrangeiros para seu quadro de professores permanentes. "Nossa preocupação é dar uma boa base para o aluno e expor o estudante a diversas formas de olhar o mundo. Nesse sentido, é importante a presença de professores de outras procedências", afirma Antonio Freitas, pró-reitor da FGV.

Ele afirma que, no caso da FGV, o interesse é por professores com desempenho acima da média, independentemente da nacionalidade. Segundo Freitas, no quadro de 600 professores permanentes da escola no Rio de Janeiro, há cerca de 20 estrangeiros.

Em São Paulo, por sua vez, cerca de 10% do quadro de docentes é formado por acadêmicos de outros países, de acordo com Julia von Maltzan Pacheco, coordenadora de relações internacionais da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (Eaesp) da FGV. "É natural contratar um estrangeiro para dar aula, desde que ele seja o melhor candidato", afirma.

Nascida na Alemanha, ela serve de exemplo. No Brasil há 14 anos, ela dá aulas na escola há nove. "Vim para trabalhar em um banco de investimento e algum tempo depois quis mudar de área", conta Julia, que conseguiu ingressar na FGV através de sua rede de contatos.

Para encontrar o melhor candidato, a Eaesp-FGV anuncia a vaga aberta no Brasil e no exterior, por meio das escolas internacionais parceiras. Segundo Julia, uma ou outra posição se restringe ao país, mas é raro. "A escola é muito favorável a receber estrangeiros, mas não há uma preferência", diz.

(Valor Econômico Online)