terça-feira, 5 de março de 2013

Inspire-se: a escola de bambu de Vinicius Zannoti


Em 2010, após morar um ano na Europa, o jornalista Vinicius Zanotti seguiu o desejo de conhecer um país africano e rumou para a Libéria. 
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Vinicius Zanotti não se diz sonhador, "apenas" batalha pelas mudanças que quer no mundo
Fotos: reprodução/Facebook


A ideia era ficar 15 dias. Mas, em visita a um hospital no último dia de viagem, ele decidiu fazer um teste para a Malária. Deu positivo. O que poderia culminar em uma triste história, foi o início de uma narrativa digna dos melhores filmes hollywoodianos para o jovem de 27 anos. 

A Libéria é um país extremamente pobre situado ao oeste do continente africano, logo abaixo de Serra Leoa. Devastada por uma guerra civil que durou 14 anos (encerrada em 2003), onde a maioria dos soldados eram crianças cooptadas ao combate, o país ainda ostenta as cicatrizes: não há rede pública de energia elétrica, saneamento básico, semáforos em funcionamento, asfaltamento em ruas e transporte público.

Ele acabou adiando o retorno para se tratar no país, e foi justamente quando se recuperava da doença que ele conheceu Sabato Neufville, um encontro que mudaria de vez a sua vida. Prestador de serviços das Nações Unidas, Sabato, de 34 anos, demonstrou que faz o que pode para mudar a realidade que o cerca. 

Mesmo solteiro, adotou nove crianças órfãs de guerra. Com o salário de U$ 800 mensais, além de sustentar os filhos, ele financia atividades de teatro, dança e música em dois diferentes bairros. Como se fosse pouco, ainda construiu uma escola para que 300 crianças da periferia de Monróvia, a capital do país, pudessem ser educadas na comunidade de Fendell. 

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Sabato sustenta a escola com o próprio salário

Com condições de vida degradantes, 65% da população é composta por crianças e jovens abaixo dos 15 anos
Encantado pela história de Sabato, ao se recuperar, o jovem jornalista resolveu conhecer a escola construída pelo liberiano. Erguida com paredes de bambu e coberta por um teto com folhas de zinco, a escola funciona como pode: tudo que Sabato tem condições de repassar aos professores são irrisórios U$ 20 por mês, quando o mínimo na Libéria é de U$ 70 mensais. 

"Mesmo assim, os professores da unidade construída com bambus enfileirados não pensam em procurar outro trabalho. Eles sabem que, se abandonarem a comunidade de Fendell, dificilmente aquelas crianças terão outra oportunidade para estudar", explica Zanotti.


A ideia do documentário surgiu praticamente no mesmo instante que ele conheceu o lugar. O jornalista passou então outros dois meses filmando na Libéria - tempo suficiente para contrair febre tifóide. Nesse tempo, ele viu que poderia fazer mais: de lá mesmo, contatou o amigo e arquiteto André Dal'Bó, que topou na hora fazer o projeto.

Foi assim que o documentário "Escola de Bambu", ganhador de três prêmios, deu origem ao projeto homônimo, que busca construir uma nova escola de bambu, com toda a infraestrutura necessária para educar 300 crianças liberianas.

Projeto

A ideia da nova Escola de Bambu sustentável foi de Dal'Bó, inspirado em projetos semelhantes no semi-árido brasileiro. O espaço prevê saneamento básico, cisternas, blocos adobe, e bambus, dessa vez utilizados como elemento estrutural, e não para vedação como na atual escola. A falta de energia na comunidade será solucionada com o projeto desenvolvido pelo bioconstrutor Peetssa: um gerador de energia fabricado com ímãs de HDs quebrados e rodas de bicicleta. "Uma solução barata, de energia totalmente limpa e renovável", diz.

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Projeto da nova Escola de Bambu

Além disso, a escola deverá contar com um laboratório de informática dotado de 40 computadores e fossas biodigestoras, que resolverão ao mesmo tempo a falta de rede de esgoto e a necessidade de adubo para a comunidade, essencialmente rural. "A escola vai ser a própria a escola. Os liberianos vão aprender a construir a escola e estar aptos para poder reproduzir depois", conta Zanotti, que prevê o repasse da tecnologia para os liberianos como forma de cooperação de conhecimento.

Campanha

A equipe dos chamados "bambuzeiros" é atualmente bem maior do que apenas o jornalista, o arquiteto e o bioconstrutor. São 40 pessoas voluntárias do Brasil inteiro que ajudam a captar recursos para tornar a Escola de Bambu realidade. "A equipe veio de vários lugares. Amigos de amigos, pessoas que fizeram contato pela internet. A gente é bem aberto. Se quiser ajudar, é só chegar", conta Zanotti.

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Núcleo "central" dos bambuzeiros

Mesmo após um ano de campanha, o projeto, orçado em R$ 250 mil, deve sair do papel mesmo com um pouco mais que metade do valor: cerca de R$ 145 mil foram arrecados até o momento, o suficiente para fazer os bambuzeiros viajarem até a Libéria, com milhas doadas, para iniciar a construção. 

Para conseguir o dinheiro, além da doação direta feito por um sistema de pagamento on-line (que aceita cartão de crédito e divide o valor), os bambuzeiros criaram uma loja virtual, onde é possível adquirir desde rifas e canetas por R$ 5 até uma camisa feita exclusivamente (e gratuitamente) pelo estilista Ronaldo Fraga por R$ 50.

Dos quatro milhões de liberianos, apenas 2.800 pessoas têm acesso à internet
Os voluntários promovem ainda festas e encontros para ajudar na captação de recursos, rifas e aceitam até doação de milhas para viajar até Libéria: vale tudo para ajudar. O documentário também está disponível para venda no site.

O jornalista conta que a captação realmente foi a parte mais difícil do projeto. "No Brasil, não há uma cultura de doação. Além disso, a maior parte das empresas está preocupada com a responsabilidade social no seu local atuação", dispara ele, afirmando que o valor do projeto seria totalmente coberto se cada um dos quase 7 mil "curtidores" do projeto no Facebook colaborassem com pouco mais de R$ 50.

Transformação

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Quando esteve no Brasil, em novembro de 2011, Sabato declarou que Zanotti foi o primeiro que não abandonou a ideia de ajudá-los. Quando questionado por que não desistiu Zanotti foi enfático: "Eu dei a minha palavra a Sobatto". A motivação, segundo conta, é a vontade de um mundo diferente. "Se cada um fizer uma construção, por menor que seja, vai transformar o mundo em um lugar melhor", frisa.

Embora não se considere um sonhador, apenas "alguém que batalha pelas mudanças que quer", Zanotti tem consciência que está transformando em realidade o sonho de Sabato. "Não adianta falar que o político rouba e não fazer nada para mudar. Eu não vou consegui mudar o mundo com esta escola, mas é um passo para transformar uma realidade - nem que seja a dessas 300 crianças".


(ECOD)