domingo, 12 de julho de 2015

Sítio arqueológico pode mudar história da presença dos humanos na América

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Fundação Araporã estão estudando um sítio arqueológico em Boa Esperança do Sul (SP) que pode mudar a história da chegada do homem à América. Indícios mostram que nômades viveram na região há 14 mil anos.


O pesqueiro onde o sítio arqueológico está localizado fica na Rodovia Comandante João Ribeiro de Barros (SP-255), que liga as cidades de Araraquara e Boa Esperança do Sul, e basta andar alguns metros para alcançar a área, próxima a uma plantação de cana.

No local, foram encontradas pedras que podem ter sido usadas como ferramentas, cada uma para uma função específica. Uma delas, por exemplo, tem forma arredondada e possivelmente era utilizada como uma espécie de martelo. Outra pedra, com um formato diferente, deve ter sido usada como uma faca.

“Uma das pedras seria como se fosse um raspador, como chamamos, algo utilizado para descamar um animal ou coisas do tipo”, disse o arqueólogo Roberto Ávila.

Para encontrar o material, um buraco de mais de um metro de profundidade foi aberto no local. Também na região, geólogos da Unicamp mapearam o solo e recolheram amostras da terra. A ideia é tentar descobrir como era o ambiente em que as pessoas viviam. “Muito provavelmente o ambiente era muito mais seco do que atualmente, uma paisagem completamente diferente”, disse o professor Francisco Ladeira.

Passado – Essa não é a primeira vez que os pesquisadores estudam esse terreno. O sítio foi descoberto em 2003, quando eram procuradas áreas com potencial histórico na região. Mas o foco mudou.

Como algumas áreas têm indícios de ocupação de nômades há 14 mil anos, a pesquisa quer comprovar esse passado. Se for confirmado, o fato pode mudar a história da chegada dos primeiros seres humanos à América.

“A teoria tradicional, que diz que os humanos vieram pelo estreito de Bering e pelo Alasca e entraram nas américas, comprovaria que esse modelo pode estar certo com relação ao caminho, mas errado com relação à idade. O pessoal fala que os primeiros humanos passaram por volta de 12 mil, 13 mil anos. Se o sítio aqui tiver 14 mil anos, com certeza é mais antigo”, explicou o pesquisador do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, Astolfo Araújo.

Mudanças – O arqueólogo Fábio Grossi dos Santos explicou que é de conhecimento dos pesquisadores que os nômades se reuniam em pequenos grupos. Entretanto, os indícios apontam que o grupo seria maior, o que pode significar um processo de mudança no comportamento.

“Muda até o aspecto de como encarar a nossa história porque até hoje encaramos ela de um modo etnocêntrico e europeu, aquela história de que Cabral chegou há 500 anos. E aqui na nossa região, lá para o século XIX, normalmente. Com isso, estamos vendo que nossa história é muito mais antiga, na verdade. A gente tem material arqueológico desde a superfície até dois metros de profundidade de uma forma contínua.
Isso indica que eles ficaram aqui por muito tempo, então seria talvez um indício de que eles estivessem transformando esse modo de vida, deixando de ser nômades para serem mais sedentários”, falou.

O estudo deve prosseguir e, se os indícios forem confirmados, o sítio pode entrar para a história e levantar novos questionamentos, além de ajudar em novas descobertas. “Será que vieram pelo interior ou pelo litoral? Se vieram pelo litoral, esse sítio estaria debaixo da água. Cada dado novo que a gente apresenta, como tudo em ciência, coloca várias outras questões”, disse Araújo. 

(Fonte: G1)