domingo, 12 de abril de 2015

Desperdício inspira imigrante húngaro em projeto milionário de reciclagem

Em 1991, Tom Szaky desembarcou com os pais no Canadá ainda com lembranças frescas do regime comunista na Hungria, que levou seus pais a fugirem do país anos antes.

Durante passeios com o pai, ele teve uma experiência que moldou sua filosofia de vida: viu uma pilha de TVs descartadas.

“Na Hungria (durante o regime comunista) você precisava de uma licença do governo para comprar uma TV. Esperava talvez um ano para receber uma TV em preto e branco e assistir apenas ao canal estatal. No Canadá, as pessoas jogavam fora diariamente montanhas de TV a cores que ainda funcionavam”, conta Szaky.

A experiência fez o húngaro refletir sobre o conceito de lixo. Duas décadas depois, Szaky encabeça uma companhia cuja missão de eliminar lixo evoluiu de um empreendimento de fundo de quintal para tornar-se um negócio milionário: a Terracycle, com sede nos Estados Unidos, arrecadou US$ 20 milhões (R$ 54 milhões) em 2014.

Calça repetida – A empresa opera em 21 países, incluindo o Brasil. Seu modelo de negócio é encontrar lixo e transformá-lo em algo útil – especialmente itens difíceis de serem reciclados, como pontas de cigarro e cápsulas de café.

Eles são transformados em materiais e vendidos para outras empresas, ou então viram itens como sacolas, cestas de lixo, bancos e até capas para tablets e celulares.

Fundada há 13 anos, a TerraCycle tem contratos com uma série de grandes empresas e esquemas diretamente com consumidores – em troca do lixo que eles produzem, a empresa faz doações para uma instituição de caridade à escolha do cliente.

Com os cabelos desalinhados e usando moletom e jeans, Skazy, de 33 anos, é uma figura típica da nova geração de empreendedores que deixa de lado a formalidade.

Mas o húngaro vai além: como parte de um projeto para reduzir seu consumo, ele usa a mesma calça há um ano, com exceção dos finais de semana, quando a calça é lavada.

Estudos interrompidos – A experiência com o choque de modelos econômicos entre a Hungria e o Canadá serviu de inspiração para que Skazy tomasse uma decisão drástica em 2002, aos 19 anos: ele interrompeu os estudos em psicologia e economia na prestigiada Universidade de Princeton para abrir a TerraCycle. Para o desgosto de seus pais, que defendiam a importância da educação acadêmica.

“Foi um daqueles momentos em que o filho diz aos pais algo como ‘Essa é a minha vida e eu faço que bem entender’. Um divisor de águas neste sentido”, diz o empresário.

O primeiro produto pela TerraCycle foi um fertilizante orgânico feito a partir de excrementos de minhoca. Em apenas cinco anos, o volume de vendas estava entre US$ 3 milhões e US$ 4 milhões, mas a empresa ainda dava prejuízo.

Foi quando Szaky se deu conta de que sua abordagem estava errada. “Estávamos tentando idealizar um produto e depois achar o melhor tipo de lixo para produzi-lo”, conta Szaki.

“Mas depois de cinco anos viramos tudo de ponta-cabeça. Em vez de começar a ideia com o produto, decidimos começar com o lixo. Tínhamos que resolver como usar saquinhos de batata frita, pontas de cigarro, etc.”

Em busca de lucro – Sem essa mudança, o jovem empresário acredita que a TerraCycle jamais seria um negócio lucrativo. E Szaki acredita firmemente no lucro.

“Muitos empreendedores pensam que você está dividido entre fazer o bem pelo mundo sem ganhar coisa alguma ou fazer algo negativo e ganhar um monte de dinheiro.”

“Não escolho nenhuma das duas. Quero ganhar montes de dinheiro fazendo coisas boas. Ganhos pessoais também motivam as pessoas. Se eu vender minha empresa vou ganhar milhões e isso me motiva”, afirma.
“Eu realmente quero viver minha vida dessa maneira (reciclando lixo), mas o fato de que posso sair dessa empreitada com milhões de dólares é boa. Não vou dizer que me sinto mal com isso.”

Szaky classifica sua empresa como uma mistura de capitalismo e comunismo. Como diretor-executivo da TerraCycle, seu salário é limitado a até sete vez mais que o salário mais baixo entre os 115 funcionários.
Tudo nas operações é transparente, diz ele. Sendo assim, todos os empregados recebem os mesmos relatórios operacionais enviados para a direção.

Os escritórios da TerraCycle são de plano aberto e normalmente localizados em regiões mais baratas das cidades – nos Estados Unidos, por exemplo, os escritórios são em Trenton, no estado de Nova Jersey.
O Brasil, curiosamente, é uma exceção – a sede da empresa fica no Jardim Paulistano, área nobre de São Paulo.

Investidores - A empresa até conta com seu próprio reality show – e um trecho do programa mostra um produtor perguntando a Szaki se ele pode parar de dar “respostas ensaiadas”. Para o húngaro, o principal dos desafios à frente é manter as grandes empresas interessadas no projeto. “Nosso projeto depende dessas organizações continuarem a querer os programas de reciclagem, porque todo mundo quer passar para a próxima novidade”, diz.

Já no plano dos consumidores individuais, Szaki diz ser necessário mantê-los interessados nesses ganhos intangíveis.

“Eles estão comprando um sentimento bom, um produto mais difícil de vender. Há uma ausência de retorno físico. É diferente de comprar um produto. Estamos vendendo algo esotérico.”

Esotérico ou não, os investidores estão interessados – Szaky está em negociações com um grupo britânico para vender 20% das ações da TerraCycle por cerca de US$ 30 milhões. 

(Fonte: G1)