terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Tese que questiona entrada do homem na América volta a ser discutida

Uma teoria uruguaia que, após a descoberta de fósseis de 30 mil anos, questiona a tese que o homem chegou ao continente americano pelo Estreito de Bering voltou a ganhar força graças à sua divulgação em uma publicação de prestígio internacional na semana passada.


Em entrevista à Agência Efe o responsável por essa abordagem, o paleontólogo da Universidade da República Uruguaia (Udelar), Richard Fariña, explicou que sua pesquisa acaba de ser publicada em Londres pela revista Proceedings of the Royal Society.

A teoria se concentra em fósseis descobertos em 1997, em Arroyo Vizcaino, na aldeia de Sauce (35 km a oeste de Montevidéu).

Segundo o especialista, os mais de mil ossos encontrados, que pertencem a 27 exemplares de várias espécies animais já extintas, “revelam características que sugerem a presença humana”.

Esta informação releva o paradigma existente, que estabelece que o povoamento americano ocorreu do norte ao sul e milhares de anos mais tarde.

A equipe de pesquisa, que também inclui Sebastián Tambusso, Luciano Varela, Ada Czerwonogora, Mariana Di Giacomo, Marcos Musso, Roberto Bracco e Andrés Gascue, explica que os restos dos exemplares encontrados “são de adultos jovens”, mais resistentes que os idosos.

“Há poucas evidências que (os fósseis) tenham sido transportados por uma corrente fluvial” até o lugar em que foram descobertos, por isso parece que ele poderia ter sido colocado ali por seres humanos.

Além disso, “vários dos ossos mostram marcas profundas, assimétricas, microestriadas e afiadas, semelhantes às produzidas pelas ferramentas de pedra dos humanos”, diz o estudo divulgado em Londres.

No mesmo local foi encontrado uma peça de pedra em forma de raspador, cuja superfície “apresenta um polimento parecido ao dos utensílios usados pelo homem”, explicou Fariña à Efe.

O especialista também observou que “os ossos descobertos com possíveis marcas da presença humana na América do Sul e ao leste como no Uruguai acrescentariam um ingrediente a mais para o estudo da interação entre os humanos e a “mega fauna”, essas espécies de animais de grande porte que viveram durante o Pleistoceno”.

O paleontólogo revelou que datação por carbono 14 em que os restos foram submetidos determinou que eles pertenciam a um período entre 27 e 30 mil anos atrás.

No entanto, a teoria mais reconhecida data da chegada do homem no continente americano “nos últimos milênios do Pleistoceno, 13 ou 14 mil anos atrás”, lembrou.

A hipótese tradicional defende que os primeiros habitantes da América foram os clóvis, um povo de caçadores que vieram em seguida do nordeste da Ásia e cruzaram o noroeste da América (atual Alasca) pelo Estreito de Bering.

Este ponto foi questionado recentemente por vários outros cientistas de universidades de pesquisa espanholas e alemãs, que estudaram a genética de várias comunidades nativas no sul do continente americano e concluíram que eles tinham origens diferentes.

Por exemplo, alguns habitantes do Peru apresentavam padrões genéticos próprios dos habitantes da Polinésia, por isso poderia ser criada a hipótese que os primeiros seres humanos chegaram à América em sucessivas ondas a partir de várias localizações geográficas, e não uma única migração.

Fariña argumentou que essas pesquisas “apresentam resultados que contribuem para o debate internacional” sobre como e quando o homem chegou na América, mas ele preferiu se manter “cauteloso” antes de estabelecer uma teoria definitiva sobre o assunto.

O paleontólogo explicou que a publicação de seu trabalho na “Proceedings of the Royal Society “não significa que é verdade ou não, porque na ciência não há verdades reveladas”, mas de alguma forma é válida.

Agora, ele espera continuar a pesquisa no campo Arroyo Vizcaíno em janeiro, pois com a chegada do verão austral se torna mais fácil escavar os sedimentos do leito do rio e encontrar “mais segredos da natureza”.

Em 2011 a Presidência uruguaia informou sobre a pesquisa pela primeira vez, apesar de aparentemente ter começado muito antes, em 1997, mas, em seguida, teve que ser cancelada por falta de fundos.

Apesar disso, em 2001 o paleontólogo espanhol Alfonso Arribas já havia anunciado a descoberta de marcas em um osso encontrado na área. 

(Fonte: Terra)