domingo, 2 de agosto de 2009

Demanda por alimentos impulsiona alimentos orgânicos

Quando adquiriu as terras, Marcos Palmeira percebeu que os antigos funcionários - mantidos na propriedade - não comiam o que plantavam. "Tem muito veneno", respondeu um deles na lata. Foi quando ele decidiu que nenhuma química seria mais empregada por lá.

No começo, ambos enfrentaram pragas sucessivas sobre as lavouras. O projeto de cultivar sem pesticidas só começou a deslanchar com orientação de um agrônomo especializado. A conversão para a agricultura orgânica é um processo que demora no mínimo três anos e no qual o agricultor tem de estar disposto a encarar prejuízos no início, como eles o fizeram. O solo pede tempo para restabelecer sua fertilidade nessa agricultura que preconiza a diversificação da terra e a rotação de lavouras, que evitam problemas provocados pela monocultura, como o risco à biodiversidade.

A certa altura, a Vale das Palmeiras pedia a definição de um rumo. "Ou se transformava em negócio ou virava lazer. Fiz a escolha pelo negócio, só que sustentável", explica. "Com a prática, descobri a adubação verde, o consórcio de plantas e a ação de algumas delas no controle de pragas e insetos", comenta, agora, com muita intimidade com as técnicas, o manejo e as manhas recomendados pelos preceitos ecológicos. Há quatro anos, ele conta com a assessoria do engenheiro agrônomo senegalês Aly Ndiayl, responsável direto pelo cultivo de hortaliças (no começo eram 10 e agora já são 35 tipos) e pela produção de iogurte e queijos - afinal, Marcos Palmeira tem muitos compromissos como ator e nem sempre está presente. No total, eles vendem 600 quilos de hortaliças, 150 queijos, 20 quilos de ricota e 250 garrafas de meio quilo de iorgurte por dia, comercializados em supermercados da Zona Sul carioca e da rede Wal-Mart no Rio e em São Paulo. "Hoje, a fazenda dá lucro e emprega 30 funcionários com carteira de trabalho assinada", reforça o ator agricultor, que se envolveu em outras frentes. Com apoio do Sebrae, da Fundação Banco do Brasil e outros parceiros, Marcos e Aly percorrem o país para promover a implantação do Pais - Produção Agrícola Integrada Sustentável, método de cultivo de hortaliças em canteiros circulares em pequenas propriedades (leia a respeito em revistagloborural.globo.com). Além das palestras que ele faz por todo o país, o ator pretende promover dias de campo nas vizinhanças da fazenda, na companhia do agrônomo."São meios de incentivar o cultivo orgânico e mostrar aos produtores que preservação ambiental e lucro são compatíveis", diz

Colheita em círculosO ator Marcos Palmeira é defensor de uma tecnologia que promove o plantio de hortaliças e a criação de galinhas no mesmo espaço

Quando o ator Marcos Palmeira comprou a propriedade Vale das Palmeiras, em Teresópolis, na serra fluminense, há 14 anos, a intenção era apenas a de se tornar agricultor. Na época, ele foi movido pelas lembranças da infância, passada na fazenda de cacau dos avós no sul da Bahia. O tempo fez com que Marcos pegasse gosto pela terra e decidisse transformar o cultivo de hortaliças em processo orgânico, que dispensa a aplicação de agrotóxicos. A partir daí, o ator se tornou um entusiasta do movimento que cresce cerca de 20% ao ano em todo o mundo, e começa a enfrentar o desafio de ter escala para atender o consumo. Há quatro anos, deu um passo adiante e envolveu-se num projeto ainda mais ambicioso, em parceria com o senegalês Aly Ndiayl, engenheiro agrônomo da fazenda.

Aly queria desenvolver há tempos uma tecnologia que atendesse a pequenas propriedades. Seu sonho acabou se concretizando através do Pais - Sistema de Produção Agroecológica Integrada e Sustentável, que se baseia num princípio simples: consorciar o plantio de hortaliças à criação de galinhas. Os cultivos são feitos em canteiros circulares que medem 1,20 metro de diâmetro. O projeto prevê a construção mínima de três canteiros em cada propriedade, mantendo-se uma distância de 50 centímetros entre eles para facilitar a colheita e os tratos culturais. O sistema é irrigado por gotejamento, com água que vem por gravidade de um reservatório situado 4 metros acima da horta. Os canteiros circundam um galinheiro com raio de 5 metros. Ali é possível criar até cem aves, que ainda contam com duas áreas de 200 metros quadrados para ciscar durante o dia. O esterco vai para a compostagem que servirá de adubo para os plantios.

O Pais já foi implementado em 4 mil propriedades de 16 estados brasileiros, e conta com financiamento do Sebrae e da Fundação do Banco do Brasil, entre outros órgãos. O custo de cada projeto é avaliado em 5 mil reais, mas o produtor não paga por sua implantação. Em contrapartida, assume o compromisso de manter o sistema apenas com o cultivo agroecológico.
Marcos Palmeira e Aly Ndiayl estão orgulhosos com os resultados dessa tecnologia. Em alguns lugares, as hortaliças são comercializadas em feiras locais, rendendo a um bom produtor cerca de 1.500 reais por mês. Os idealizadores do projeto têm percorrido o país para divulgar o sistema de cultivo, cabendo a Aly realizar o treinamento dos técnicos locais. Além de difundir a técnica, a dupla também quer demonstrar que a agricultura pode ser parceira do meio ambiente.

(REVISTA GLOBO RURAL. )