sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Pesquisadores brasileiros desenvolvem remédio para câncer com saliva de carrapato

Estudo genético de secreção do parasita revela proteína capaz de matar tumores de pâncreas em laboratório. Em fase de testes pré-clínicos, desenvolvimento do medicamento terá financiamento do BNDES.

Uma proteína da saliva do carrapato-estrela, parasita comum nas áreas rurais do Brasil, conseguiu reduzir tumores de pâncreas cultivados em laboratório, um dos tipos de câncer mais letais em humanos.

O experimento, comandado por pesquisadores do Instituto Butantan, de São Paulo, foi bem sucedido também para tumores de pele e nos rins, inclusive em testes feitos com camundongos. O desenvolvimento do medicamento tem que passar ainda por mais testes em animais até poder ser experimentado em humanos, na fase chamada de teste clínico. Mesmo assim, está criada entre os pesquisadores envolvidos, do Laboratório de Bioquímica e Biofísica do instituto, grande expectativa para a descoberta de um tratamento do câncer de pâncreas com remédios, algo ainda possível apenas por meio de cirurgia. Tumores no órgão matam em praticamente 100% dos casos em que o bisturi não tem como ser usado.

- A saliva do carrapato possui propriedades tóxicas para células tumorais, sem oferecer risco para as células saudáveis - declarou a coordenadora do estudo, Ana Marisa Chudzinski-Tavassi, em comunicado divulgado pelo instituto. - Resolvemos testar a proteína tanto em cultura de células normais quanto em cultura de células tumorais. E a surpresa foi muito grande, porque a proteína, visualmente, não fez nada nas células normais mas matou as células tumorais.

De acordo com a pesquisa, animais que passaram por um tratamento de 180 dias no laboratório não tiveram recidiva, termo médico para dizer que o tumor não voltou a crescer.

Os cientistas do Butantan vasculharam o genoma do carrapato (Amblyoma cajennense), o mesmo que é capaz de transmitir a febre maculosa. O estudo, que começou em 2003, foi patrocinado inicialmente pela Fundação de Amparo e Pesquisa de São Paulo (Fapesp) e atualmente também é financiado pela União Química Indústria Farmacêutica, detentora da patente do remédio e uma das dez maiores produtoras de medicamentos do país.

Os testes pré-clínicos, para saber as reações em humanos do medicamento biotecnológico, serão financiados pelo BNDES, que dispôs de R$ 15,2 milhões para esta fase da pesquisa por meio de seu Fundo Tecnológico (Funtec).

Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA), o câncer de pâncreas representa 2% de todos os tipos, sendo responsável por mais de nove mil novos casos anualmente. Dos pacientes que desenvolvem a doença, 75% morrem ainda no primeiro ano de tratamento. Cinco anos após a detecção do tumor, a taxa de mortalidade sobe para 94%.

Fonte: O Globo Online