Ações ligadas a educação sobem até 90%


No ano em que o Ibovespa acumula ganho de apenas 8%, o setor de educação se destaca. As ações das três empresas ligadas principalmente ao ensino superior listadas na Bolsa dispararam em 2012.

Os papéis da Kroton (KROT11), a maior alta, subiram 90,9% no ano. Em seguida vem a Estácio (ESTC3), com valorização de 84,7% e, depois, a Anhanguera (AEDU3), com 62,1%. São três os motivos apontados pelos analistas: o aumento no número de alunos, o financiamento estudantil e um mercado de trabalho mais competitivo.

O Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) ganhou condições mais atrativas em 2010, quando os juros caíram para 3,4% ao ano. Aliado a isso, a exigência cada vez maior de mão de obra qualificada e o aumento da massa salarial da classe média brasileira incentivam os estudantes a buscarem o ensino superior.

Esses fatores fizeram com que aumentasse o número de alunos matriculados nas três instituições, o que resultou em balanços positivos no segundo trimestre e no primeiro semestre.

Segundo Bruno Giardino, analista de educação do Santander, uma parte do movimento se deve à recuperação de perdas que as empresas tiveram no ano passado e outra, à geração de caixa. "Existia uma preocupação dos investidores que o setor consumia muito caixa e que não era possível gerar", afirma. "No começo do ano, as empresas anunciaram que iriam fazer menos aquisições neste ano, que iriam integrar aquelas que já vinham sendo feitas e que haveria geração de caixa", diz Giardino.

O ano passado foi marcado por aquisições no setor, como a da Unopar pela Kroton por R$ 1,3 bilhão.

Perspectivas - A médio e longo prazos, os analistas acreditam que as ações ainda têm espaço para crescer - mas não com altas tão expressivas como as que obtiveram até agora - porque a expansão do setor e o ambiente favorável às empresas devem continuar. "Aparentemente, o pior do impacto externo na economia brasileira já passou. Acho que não tem por que os resultados caírem, mas lógico que não vão crescer na mesma intensidade. Ainda tem coisa positiva para sair daí", diz Michael Viriato Araújo, professor de finanças do Insper.

Uma das apostas para o crescimento deve ser o ensino à distância, cuja margem é ainda maior do que a do presencial, já que os custos são menores. O setor representa 14,6% das matrículas de graduação no ensino superior, segundo o Censo da Educação Superior de 2010. O levantamento aponta ainda que 74% dos alunos (presenciais e à distância) estão no segmento privado.

De acordo com especialistas, o perfil mais adequado é o investidor que tem mais apetite para o risco, já que as ações têm pouca liquidez e tendem a sofrer mais em momentos de crise. "Historicamente, tem sido um setor mais arriscado, com volatilidade operacional. Em 2012, talvez estejamos iniciando um caminho diferente, mas não vejo ainda como defensivo. Mesmo com o Fies, que pode torná-lo menos cíclico, ainda é um setor cíclico, dependente da atividade econômica", diz Thiago Macruz, analista do Itaú BBA.

Expansão no ensino é realidade, mas é preciso debater qualidade
Análise de Zacarias Gama, professor associado do Uerj/PPFH (Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana).

O sistema de ensino superior do Brasil, segundo dados de 2010 do Inep, tem 2.378 instituições de educação superior (IES), das quais apenas 278 são públicas. Isso quer dizer que 88% das IES pertencem à iniciativa privada, leiga e religiosa. Em 2002 havia 1.637 IES: 195 públicas e 1.442 particulares. Nesse período foram fundadas, respectivamente, 83 e 658 novas IES públicas e particulares.

É paradoxal essa expansão num país como o Brasil, em que a distribuição de riquezas é desigual e é baixo o rendimento médio da maioria das famílias com filhos em idade universitária. Além disso, não temos a cultura dos americanos, que formam uma poupança para pagar os estudos dos filhos.

Mas, apesar das nossas dificuldades sociais, essa expansão é uma realidade concreta e muitos grupos de educação superior apostam alto em seu crescimento nos próximos anos. Os seus investidores nacionais e estrangeiros têm auferido bons dividendos com a valorização das suas ações. Os lucros são altos.

Apenas um desses grupos teve lucro líquido de R$ 140 milhões no segundo trimestre de 2012, alta de 186% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, e a expectativa negativa de inadimplência é irrisória, praticamente a que se observa para as instituições financeiras.

É o governo brasileiro o grande avalista desse negócio da China. Suas transferências de recursos públicos para as IES privadas, os recursos do Fies (Fundo de Financiamento Estudantil) e do ProUni (Programa Universidade para Todos) garantem a rentabilidade desse mercado educacional que já se coloca entre os dez maiores do mundo.

Para determinados setores da sociedade, isso expressa a democratização da educação superior no país, a despeito da qualidade do ensino. Salvo as honrosas exceções, a grande maioria de IES produz um autêntico derrame de diplomas sem valor agregado. Inúmeros são os seus diplomados nas filas de empregos ou nas atividades econômicas informais.

A sociedade, no entanto, necessita se questionar e debater acerca dessa expansão. Qual o papel estratégico que tais IES ocupam no novo projeto de sociedade que vem se desenhando nos últimos anos? Estão comprometidas com a produção de conhecimento com valor agregado para sustentar o nosso atual e futuro desenvolvimento?

Que tipo de cidadãos e quadros estão formando para as nossas Forças Armadas, Legislativo, Judiciário, indústria e comércio? Que inovações, ciência, tecnologia, compreensões de sociedade e cultura desenvolvem? O debate é urgente e precisa entrar em pauta já.

(Folha de São Paulo)

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