Sondas gêmeas podem esclarecer mistérios da Lua

Quatro décadas após levar o homem à Lua, a Nasa retoma a exploração do satélite, desta vez com dois robôs gêmeos que medirão a gravidade local com o objetivo de tentar decifrar o que há sob a superfície lunar até o núcleo do satélite.

O principal objetivo da missão, ao medir o campo gravitacional da Lua, é tentar determinar como e quando diferentes partes do satélite se resfriaram e se solidificaram. Enquanto a geografia da Terra sofre constantes alterações devido ao movimento das placas tectônicas, apagando continuamente as memórias de suas origens, a superfície e o interior da Lua mantém um registro praticamente intacto da história de 4,5 bilhões de anos do Sistema Solar.

Embora sejam lançados ao mesmo tempo, os dois veículos espaciais, que têm o tamanho de uma máquina de lavar, vão se separar uma hora depois do início do voo e viajar independentemente rumo à Lua.

Será uma trajetória longa e repleta de desvios, com duração de quatro meses, por causa do pequeno foguete Delta II que será usado para impulsionar os gêmeos. Para efeito de comparação, os astronautas da missão Apollo contaram com o poderoso foguete Saturn V, que cobriu os cerca de 380 mil quilômetros até a Lua em apenas três dias. Estima-se que a missão, da decolagem ao seu fim, custará US$ 496 milhões.

Cientista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e principal pesquisadora da missão Grail, Maria Zuber ressalta que a atração provocada pelo satélite é universal. "Quase todo ser humano que já viveu olhou para a Lua e a admirou. Ela tem um papel central no imaginário e na psique humana', ressalta.

Desde o início da exploração espacial, em 1957, a Lua foi alvo de um total de 109 missões, com 12 pessoas tendo passeado por sua superfície e 381 quilos de rochas coletadas e enviadas de volta à Terra, muitas delas ainda em processo de análise.

Três veículos espaciais estão orbitando a Lua atualmente e produzindo observações científicas. Um projeto para levar astronautas de volta ao satélite foi vetado em prol de um plano que levará um asteroide a Marte.

De acordo com Maria, apesar de toda a exploração, os cientistas ainda não sabem muito sobre a Lua. Sua estrutura, por exemplo, ainda levanta diversas dúvidas. Seu lado mais distante da Terra também permanece envolto em mistérios. As futuras descobertas dos gêmeos Grail devem contribuir para compreender a sua origem. "Você deve pensar que, após mandarmos tantas missões para lá, entenderíamos as diferenças entre a metade mais próxima e a outra, distante. Mas, na verdade, não sabemos", admite a pesquisadora.

Estudos recentes sugerem que a Terra já pode ter contado em sua órbita com uma segunda e menor Lua, que colidiu com a que existe até hoje. Este choque entre elas teria produzido uma região montanhosa. A missão Grail tem, como uma de suas metas, esclarecer essa teoria.

O Grail-A deve chegar ao satélite na véspera do Ano Novo. No dia seguinte, ele recebe a companhia da Grail-B. Eles entrarão em órbita em torno dos polos lunares e, eventualmente, acabarão circulando apenas 55 quilômetros acima da superfície. Os dois veículos espaciais perseguirão um ao outro ao redor da Lua por cerca de três meses, voando em meticulosa formação. A distância entre as duas sondas vai variar de 64 a 225 quilômetros. Sinais de rádio entre os gêmeos fornecerão sua localização exata, mesmo na metade mais distante do satélite.

Os instrumentos extremamente precisos dos Grail vão medir variações ínfimas na distância e velocidade entre as naves e a Lua, procurando, assim, sinais de mudanças na massa na superfície do satélite ou sob ela: em montanhas, tubos de lava, crateras.

Segundo a Nasa, o campo de gravidade da Lua, seis vezes mais fraco que o da Terra, é um dos mais desiguais do Sistema Solar, indicando uma estrutura e composição internas muito complexas. "A mudança de velocidade entre os dois veículos Grail é medida em décimos de microsegundo. É um cálculo extremamente preciso", explica Maria.

Quando esta missão for encerrada, em meados do ano que vem, as sondas gêmeas Grail estarão a cerca de 16 quilômetros da superfície lunar. Salvo uma mudança de planos, elas devem se chocar com a Lua. Esta é a segunda missão robótica da Nasa desde a aposentadoria dos ônibus espaciais, em julho. A sonda Juno iniciou, no dia 5 de agosto, uma viagem de cinco anos rumo a Júpiter.

(O Globo)

Postar um comentário

0 Comentários