Animais da mesma espécie têm peçonhas diferentes. Uma mesma espécie de sapo, a Rhinela granulosa, produz venenos diferentes quando vive na caatinga ou em florestas como a mata atlântica.
Uma jararaca da região amazônica, a Bothrops atrox, fabrica venenos de composição distinta no Maranhão ou no noroeste do Amazonas. Em um mesmo local, jararacas machos e fêmeas injetam em suas presas venenos com componentes distintos.
A composição e, portanto, a letalidade dos venenos podem variar em um mesmo animal: uma espécie de anfíbio – a cobra-cega Siphonops annulatus – produz toxinas diferentes na cabeça e na cauda, por onde é mais atacada quando se enterra ou entra em buracos. Já as abelhas produzem venenos com cheiro que lembra o de mel e ingredientes que variam de acordo com a temperatura e a estação do ano.
Antes pouco diferenciadas, essas misturas de toxinas estão ganhando identidades próprias, à medida que seus ingredientes e as prováveis funções biológicas de cada um deles se tornam mais conhecidos nos laboratórios do Instituto Butantan, o centro nacional de referência na produção de soros contra animais peçonhentos.
A eficácia dos tratamentos, agora está claro, poderá ser ampliada à medida que se agregarem informações sobre a origem, o ambiente, a idade e a dieta do animal peçonhento: o soro para a picada de uma jararaca de São Paulo pode não servir para aplacar totalmente os efeitos da picada de uma espécie do norte do país. As Bothrops respondem por cerca de 80% dos 20 mil acidentes com cobras registrados por ano no Brasil, com uma mortalidade de 10% entre as pessoas que não tomaram soro, enquanto as cascavéis são responsáveis por cerca de 10% dos casos, embora com 75% de mortalidade.
O conhecimento crescente sobre os componentes dos venenos pode ser útil para tratar até mesmo acidentes com animais menos perigosos como os ouriços-do-mar Echinometra lucunter, causa comum de ferimentos no litoral. “O veneno desse ouriço não mata, mas merece respeito”, diz Daniel Carvalho Pimenta, pesquisador do Butantan.
Sob sua orientação, Juliana Sciani analisou o veneno liberado pelo espinho do ouriço e verificou que o inchaço – ou granuloma – do local da espetada é um sinal de uma reação inflamatória intensa, que pode durar dias, embora geralmente não mereça muita atenção. Por essa razão, diz ele, “receitar um anti-inflamatório e um analgésico pode ajudar muito depois da picada”.
Para os animais, os venenos expressam as estratégias de sobrevivência. “O veneno facilita a vida das cobras venenosas, que podem ser magrinhas, enquanto as jiboias, que não são peçonhentas, têm mais trabalho para se alimentar: elas matam as presas enrolando-se nelas e sufocando-as”, observa Carlos Jared, biólogo do Butantan que há duas décadas investiga a origem e as prováveis funções dessas misturas de toxinas que representam a continuidade da vida para uns e o fim da vida – ou ao menos muita dor – para outros.
Matar ou apenas espantar – Jared sabe bem o que uma cobra pode causar: já foi picado três vezes, na primeira por uma cascavel e nas outras duas por jararacas. Por sorte, estava no próprio Butantan e o atendimento foi rápido. Em 1984, ele demonstrava para um grupo de visitantes como um par de botas recém-importadas poderia evitar a picada de uma cascavel.
Ele esticou a perna, a cascavel atacou, mas a bota não barrou a picada, como todos esperavam. “Senti os dentes da cascavel injetando o veneno na minha perna. Eu sempre dizia que temos de manter a calma nessas horas, mas naquele momento não consegui. Nunca corri tão rápido até o hospital.”
O veneno é uma forma de defesa de que muitos animais se valem para caçar ou evitar que sejam caçados. Enquanto cobras, escorpiões e aranhas atacam ao menor sinal de perigo ou de alimento por perto, os anfíbios – sapos, rãs e pererecas – preferem afugentar em vez de matar, adotando o que Jared chama de veneno pedagógico.
Jared e sua equipe têm visto que as Rhinella, diante de possíveis predadores, enchem os pulmões de ar, estufam o corpo e deixam as glândulas chamadas parotoides prontas para esguichar veneno. Ao morder os sapos, os animais da floresta ou os cães domesticados apertam as glândulas, que liberam um líquido leitoso tóxico diretamente na boca do predador, causando taquicardia e vômitos.
Uma perereca-verde do grupo das Phyllomedusa adota uma tática defensiva mais refinada: ela se deixa comer e, enquanto o predador a engole, libera substâncias que provocam o vômito; em menos de um minuto a perereca sai pulando enquanto o predador permanece entorpecido e faminto.
Às vezes o veneno depende da dieta. Os dendrobates – rãs de pele de cor azul, verde ou amarela de no máximo três centrímetros que vivem principalmente na Amazônia – se alimentam de formigas, besouros ou ácaros que, por sua vez, se alimentam de fungos venenosos.
Os dendrobates sequestram esse veneno, que se acumula nas glândulas da pele. É assim que uma espécie de dendrobates, a Phyllobates terribilis, incorpora a poderosa batracotoxina, produzida por besouros e talvez por outros insetos. Jared comparou a letalidade dos venenos da Phyllobates e da jararaca e concluiu que o primeiro, da rã, é 8.750 vezes mais letal.
Um pássaro da Papua-Nova Guiné, o Pitohui dichrous, também come desses besouros e libera essa toxina pela pele e penas. Se a alimentação muda, o veneno desaparece. Os dendrobates mantidos nos viveiros do Butantan, que comem baratinhas, são inócuos. “Na verdade”, diz Jared, “eles eram venenosos, mas não estão venenosos”.
Nem sempre é assim. Pimenta analisou o veneno de cinco grupos de espécies-irmãs das Rhinella, que viviam na caatinga, na Amazônia ou em cativeiro. Externamente, todos são amarelados, com uma consistência próxima à do látex da seringueira, e secam rapidamente.
A composição geral era a mesma. Já as abelhas Apis mellifera, provavelmente em resposta a variações de temperatura, produzem venenos de composição distinta no inverno e no verão, podendo causar diferentes tipos de reações alérgicas. Somente no inverno é que fazem uma variante – ou isoforma – do antígeno predominante, a melitina, em uma proporção maior que os principais componentes do veneno de verão.
“Os soros experimentais contra as picadas de Apis só funcionam às vezes, talvez por não levarem em conta essas variações”, diz Pimenta.

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