Equipe internacional liderada por biólogo dinamarquês consegue sequenciar o genoma de homem que viveu há cerca de 4 mil anos na região do Ártico
Um homem moreno, de olhos castanhos, com tipo sanguíneo A positivo, dono dentes no formato de pás e ouvidos com cera seca, além de cabelos compridos - apesar de uma forte tendência à calvície. Assim era o humano pré-histórico que viveu na Groenlândia aproximadamente 4 mil anos atrás e constituiu a primeira cultura do Novo Mundo Ártico, chamada Saqqaq.
A descrição detalhada desse indivíduo ocorreu graças a um tufo de pelos, que permitiu, pela primeira vez na ciência, sequenciar o genoma de um ancestral do homem. A descoberta, liderada pelo biólogo dinamarquês Eske Willerslev, foi publicada ontem pela revista especializada Nature e promete revolucionar o estudo de povos extintos.
Depois de anos procurando in loco - e sem sucesso - vestígios arqueológicos de humanos na Groenlândia, o jovem cientista Willerslev, 38 anos, responsável por importantes achados históricos na década passada, deparou-se com o tufo de cabelo ancestral no Museu de História Natural da Dinamarca.
De acordo com ele, o estudo genético do esquimó só foi possível graças ao diretor do museu. O cientista conta que estava conversando com Morten Meldgaard quando o assunto dos povos primitivos do Ártico veio à tona. Despretensiosamente, o diretor, que já participou de diversas escavações na Groenlândia, mencionou a existência do material, recolhido na década de 1980.
Com autorização do governo, Willerslev utilizou técnicas variadas para estudar o DNA do cabelo. Descobriu que pertencia a um homem, batizado por cientistas de Inuk, que significa "humano" na Groenlândia.
"Por muitos meses, não sabíamos se colheríamos frutos do nosso trabalho. Porém, graças aos esforços de uma grande equipe internacional, finalmente conseguimos sequenciar, pela primeira vez, o genoma completo de um humano extinto", comemora o cientista. Embora não tenha chegado a 100% do sequenciamento - o time decifrou 79% do DNA -, a descoberta foi suficiente para traçar o perfil detalhado do homem pré-histórico.
Com a pesquisa, os cientistas concluíram que Inuk não tem relação alguma com os inuítes, indígenas esquimós que habitam o Ártico, o Alasca e o Canadá, nem com os atuais povos da Groenlândia e da América. Seu povo teria chegado ao local há cerca de 6,4 mil anos, durante uma onda migratória independente. Provavelmente, atravessou de barco o Estreito de Bering e era descendentes de três estirpes do norte da Sibéria: os Nganassans, os Koryaks e os Chukchis.
Novas possibilidades
Os avanços tecnológicos permitiram reconstituir um povo que não deixou qualquer vestígio de sua cultura na Groenlândia. Exceto por tufos de cabelo ou pequenas peças de ossos, nunca foram encontrados legados dos primeiros habitantes do Ártico.
De acordo com Willerslev, já se tentou previamente reconstituir o núcleo do DNA de mamutes encontrados na região, mas as experiências não deram certo porque a tecnologia defasada estragava o material genético. Agora, porém, foi possível manter a qualidade das estruturas celulares, o que permitiu a análise, sem falhas, dos genes de Inuk.
Com o sequenciamento do genoma, 3 bilhões de pares de bases foram analisados e, verificado 20 vezes, o exame ofereceu aos cientistas 350 mil variações genéticas. Foi assim que o pós-doutorando Morten Rasmussen, aluno de Willerslev e também participante da pesquisa, conseguiu chegar às características de Inuk (leia entrevista abaixo).
O especialista descobriu, por exemplo, que a cera do ouvido do homem era bastante seca, sugerindo que ele era adaptado ao frio, mas sofria de otites constantes.
Para Willerslev, mais do que mostrar ao mundo o rosto de um homem pré-histórico, a importância da pesquisa está nas possibilidades que ela abre à ciência.
"O mais interessante é que mostramos que é possível sequenciar o genoma de um ancestral com o detalhamento e a qualidade que só poderiam aparecer em amostras modernas", disse o pesquisador ao Correio. Segundo ele, aplicada a mesma técnica, outros homens pré-históricos poderão ser decifrados.
"Queremos analisar muitas outras amostras para ajudar a responder questões sobre as rotas migratórias dos nossos ancestrais. Para os brasileiros, podemos dizer que estamos em um projeto sobre a migração na América do Sul, a partir de amostras retiradas de várias múmias encontradas na região", afirmou.
(Paloma Oliveto)
Trabalho em equipe, entrevista com Morten Rasmussen
Pós-doutorando do Centro de Excelência em Geogenética do Museu de História Natural da Universidade de Copenhague e coautor do estudo sobre Inuk, o cientista Morten Rasmussen foi o braço direito de Eske Willerslev durante a pesquisa e responsável por fazer as análises qualitativas do DNA do homem ancestral. Em entrevista ao Correio, ele diz que novas pesquisas podem resolver as questões sobre as rotas migratórias, um vazio que ainda existe na ciência.
- Como os senhores conseguiram fazer o primeiro sequenciamento do genoma de um ancestral humano e como obtiveram as amostras?
Nós recolhemos a amostra de cabelo de um espécime escavado em 1986 que estava no Museu de História Natural da Dinamarca. O DNA foi extraído e nós começamos o processo de sequenciamento. Essa não é a primeira vez que recolhemos DNA de amostras humanas antigas. A coisa interessante é que nós juntamos o genoma completo. A partir de 3,5 bilhões de pedaços de DNA, nós formamos um gigante quebra-cabeças, usando a referência humana como modelo.
- De que maneira o senhor acredita que o estudo poderá ajudar a entender culturas extintas? Qual o grau de importância para a ciência em sua opinião?
Esse estudo nos permitiu encontrar dados sobre culturas extintas que seriam impossíveis de outra maneira. O Inuk pertence à cultura Saqqaq, de onde há material humano muito limitado. Recolhemos quatro tufos de cabelo e quatro fragmentos ósseos. Com base nisso, somos capazes de dizer algo sobre as feições físicas dessa pessoa, sobre seus ancestrais e inferir padrões migratórios com uma resolução muito mais alta. Nossa pesquisa é a prova do princípio de que podemos atualmente obter sequenciamento genético de culturas extintas. Também tivemos sucesso em obter a qualidade da sequência final em um nível muito próximo do que vemos em modernos projetos de sequenciamento. Algo que era impensável.
- Como os senhores obtiveram o DNA do Inuk e quais as principais características desse indivíduo?
O DNA foi extraído de uma parte do maior tufo de cabelo encontrado. As principais características que pudemos inferir sobre o Inuk são: olhos castanhos, cabelo e pele escuros, dentes frontais na forma de pás, tendência à calvície, cera do ouvido seca, tipo sanguíneo A positivo. Nós também podemos dizer que ele se adaptou a um clima frio e que provavelmente morreu jovem - principalmente por causa do grande tufo de cabelo encontrado e sua tendência à calvície.
- Quantos cientistas trabalharam no projeto e quais os principais passos até se chegar ao total sequenciamento genético?
O estudo reuniu 52 coautores de diversas disciplinas científicas. Desde a extração do DNA até a bioinformática para a genética da população. O processo para obter o sequenciamento genético consiste em primeiro extrair o DNA. Então, adicionamos sequências específicas do DNA a todos os fragmentos extraídos. Com base em marcadores específicos, reconhecemos e sequenciamos o DNA. Finalizamos com várias pequenas sequências de DNA - nesse caso, 3,5 bilhões -, que precisamos juntar para concluir o sequenciamento genético. Depois disso, pudemos começar a análise, procurando determinar com o que o Inuk se parecia e de onde seus ancestrais vieram.
- O que mais o senhor acredita que o estudo poderá revelar sobre nossos ancestrais?
O estudo é uma prova de princípio. Dada a idade da amostra, revela coisas importantes sobre as populações do Novo Mundo Ártico. Podemos dizer que havia várias migrações independentes na Groenlândia. Os parentes mais próximos do Inuk viviam na Sibéria. Se expandirmos o número de amostras sequenciadas, seremos capazes de responder a questões sobre migrações ainda com detalhe maior.
(Rodrigo Craveiro)
(Correio Braziliense, 11/2)

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