Fauna marinha ameaçada

Pesquisador norte-americano identifica que emissão de gás carbônico na atmosfera está tornando a água dos oceanos mais ácida, o que coloca em risco a vida das espécies que vivem no fundo do mar. A área mais afetada é a Antártica

A concentração de gases de efeito estufa na atmosfera não afeta apenas a temperatura do planeta, mas está transformando os oceanos drasticamente. A constatação é do biólogo marinho Jim McClintock, professor da Universidade do Alabama em Birmingham (UAB), que pesquisou, no fundo do mar, as alterações provocadas pelo excesso de dióxido de carbono.
O renomado cientista, conhecido mundialmente por suas incursões na Antártica, onde passou duas décadas estudando as espécies marinhas, alerta que algumas poderão ser extintas.

De acordo com McClintock, os oceanos são um enorme tanque para o dióxido de carbono lançado na atmosfera. Ao serem emitidos, os gases de efeito estufa são absorvidos em parte pela água marinha e, por causa de um processo químico, os íons de hidrogênio acabam deixando o oceano mais ácido.

"Existem dados pontuais que comprovam um aumento da acidez dos oceanos, e isso está diretamente relacionado ao aumento dos níveis de dióxido de carbono na atmosfera. Isso é incontestável", afirma em entrevista ao Correio. "As consequências para muitos dos organismos que chamam a água de lar são profundas", diz.

Para medir a acidez, os cientistas observam os níveis de pH na água. Quanto menor a medida, mais ácido é o líquido. Segundo o pesquisador, dados coletados desde a era pré-industrial indicam que o pH médio dos oceanos baixou de 8,2 para 8,1, com um declínio de mais 0,4 ponto no fim do século, justamente quando a concentração de gases de efeito estufa aumentou na atmosfera.

1Para se ter ideia, 0,1 de mudança no pH pode deixar as águas oceânicas 10 vezes mais ácidas, o que tira de muitos organismos marinhos a habilidade de produzirem as conchas que os protegem, além de causar uma bagunça na cadeia alimentar do fundo do mar.

Segundo McClinton, que coletou com outros três autores do estudo dados precisos sobre a acidez do oceano, as alterações verificadas no pH marinho são um problema particular para a Antártica, o continente congelado.

"O Oceano Ártico é o maior tanque global para o dióxido de carbono. Além disso, há fatores únicos na região que podem acarretar na redução da variedade dos abundantes minerais dissolvidos na água do mar polar, que são usados por invertebrados marinhos para fazer suas conchas protetoras", revela.

"Além do mais, o aumento na acidez da água do mar pode literalmente começar a engolir o exterior da superfície das conchas dos mariscos, caracóis e outros organismos calcificados, o que poderia destruir as espécies ou, ao menos, torná-las mais vulneráveis a novos predadores", completa.

Erosão em conchas

Outro estudo conduzido recentemente por McClintock com um time de pesquisadores da UAB mostrou que conchas de invertebrados marinhos da Antártica mortos há pouco tempo apresentavam erosões evidentes e significativa perda de massa com menos de cinco semanas, depois de expostas a condições de acidez simulada.

O cientista diz que a acidificação pode ainda ter impactos negativos para a produção pesqueira, com a extinção de moluscos e crustáceos. Ele acrescenta que o potencial de perda da população marinha pode alterar ainda mais a cadeia alimentar dos oceanos e produzir efeitos ruins para as indústrias que dependem de substâncias encontradas no fundo do mar.

Todas as mudanças ocorridas nos oceanos são drásticas para a fauna marinha porque, segundo McClintock, os organismos que vivem nos oceanos demoram muitos períodos - séculos e, às vezes, milênios - para se adaptar naturalmente aos novos ambientes. "Mas a acidez dos oceanos tem ocorrido tão rápido que algumas espécies podem não conseguir essa adaptação, a não ser que haja uma inversão na tendência do aumento das emissões de dióxido de carbono na atmosfera", alerta.

(Paloma Olivetto)

(Correio Braziliense, 9/2)

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