Vírus pode se disseminar pelo mundo em 4 meses

O vírus da gripe suína é um "irmão" do vírus da pior pandemia já vista pela humanidade: a gripe espanhola, de 1918. Ele surpreende os virologistas pela rápida adaptação ao contágio entre humanos. E modelos indicam que ele pode colonizar o mundo em quatro meses.

Apesar disso, dizem os cientistas, não há motivo para pânico. "A situação requer muita atenção. É positivo ver vários casos suspeitos em diferentes países. Isso prova que todos estão atentos", disse à Folha Paolo Zanotto, da USP, especialista em evolução de vírus.

Médicos reunidos no 14º Congresso Panamericano de Infectologia, em Campos do Jordão, classificaram ontem a gripe suína como "perigo real para a população mundial" caso não haja esforço global para contê-la. E, em documento, convocaram os infectologistas da região a se porem "à disposição das autoridades de saúde". (ler mais)


Até o início da noite de ontem, apesar de 21 países terem possíveis casos de gripe suína, só México, EUA, Canadá, Reino Unido e Espanha tiveram testes positivos em laboratórios. Mortes, só no México. O hemisfério Norte também está saindo do inverno, estação na qual a gripe mais se propaga.

Isso pode ajudar a reduzir a disseminação do novo vírus. Como o vírus de 1918, que matou mais de 20 milhões de pessoas, o novo parasita atende pelo nome de H1N1. As cepas do vírus influenza são batizadas de acordo com as variações de duas proteínas presentes em sua "casca": a hemaglutinina (H) e a neuraminidase (N).

O vírus suíno, no entanto, tem um arranjo genético nunca visto antes pelos pesquisadores. "Pense no pôquer. O crupiê é o porco. E ele nos deu essas oito cartas [oito segmentos do genoma] agora", diz Zanotto.

Provavelmente no México, ao circular entre porcos, aves e humanos, o vírus conseguiu trocar certos pedaços de seu genoma. Assim, fez "chaves" naturais para entrar no sistema imune humano, sem a participação de outro animal no ciclo.

"Esse é o grande problema. Na gripe aviária, por exemplo, o vírus não encontrou uma forma para passar entre os humanos. Todos os casos são de pessoas que tiveram contato com animais", diz Edison Durigon, também virologista da USP.

Letalidade em jogo

Os cientistas não sabem por que o vírus é letal no México e mais brando nos demais países. Segundo Zanotto, há duas hipóteses. A linhagem que escapou para o norte pode ser menos letal. "Ou ainda não temos casos suficientes nos EUA para as mortes aparecerem."

Durigon está mais otimista. "Precisamos saber se todos os casos relatados no México são mesmo da gripe suína." O México está saindo de uma forte epidemia de gripe comum, que também mata bastante.

Em 1918, embora o mundo fosse menos globalizado, os deslocamentos das tropas na Europa no final da 1ª Guerra disseminaram a doença.

Para Durigon, a comparação entre a pandemia de 1918 e o surto atual não faz sentido. No entanto, o inverno no hemisfério Sul pode facilitar uma epidemia de gripe suína na região.
(Eduardo Geraque com colaboração de Fábio Amato)

Infectologistas desaconselham uso de antiviral

Infectologistas desaconselham as pessoas a tomarem indiscriminadamente antivirais para prevenir a gripe suína, sobretudo no Brasil, onde não há casos confirmados da doença. O temor é que o uso indiscriminado leve à resistência do vírus.

"Não há parâmetros técnicos que justifiquem o uso de antivirais de maneira profilática nas condições atuais, exceto quando a pessoa tiver contato próximo com doentes", diz Juvêncio Furtado, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia.

"Deve-se procurar um profissional de saúde. O potencial de resistência do vírus para esses remédios é muito alto. Se todos tomarem antiviral, pode ser que a medicação não funcione quando o vírus chegar ao Brasil", orienta o infectologista Mauro Salles, da Santa Casa.

Para Nancy Junqueira Bellei, coordenadora do Centro de Pesquisa de Vírus Respiratórios da Unifesp, os antivirais só devem ser tomados sob receita médica, diferentemente de remédios sintomáticos, como os que combatem dores de cabeça.

Viagens a locais onde há contágio, sobretudo o México, devem ser evitadas, segundo dez infectologistas ouvidos pela Folha. "Se a viagem não for urgente, melhor adiar", diz Bellei. Para Salles, a recomendação vale mais para o México do que para os EUA. "Não há mortes confirmadas [nos EUA]", diz. "Se puder, a pessoa deve esperar alguns dias [para viajar], pois precisamos de mais informações", diz Esper Kallas, infectologista da Unifesp.

Nota do Ministério da Saúde informou ontem que, por ora, não há restrição de viagens a áreas afetadas pela gripe suína.
(Cláudia Collucci e Márcio Pinho)
(Folha de SP, 28/4)

Bahia é o sétimo estado a registrar suspeita de gripe suína

Homem de 40 anos voltou de viagem nos EUA com sintomas da doença. Ministério da Saúde diz que está acompanhando os casos

Um homem de 40 anos foi internado em Salvador, na segunda-feira, dia 27, com sintomas da gripe suína. Segundo a Secretaria de Saúde do estado, ele chegou de Miami, nos Estados Unidos, com febre, tosse e dores no corpo e está passando por exames. Ele seria o 12º caso suspeito no país.

O Ministério da Saúde informa que está acompanhando todos os casos. Até a tarde de segunda, o governo federal registrava 11 pacientes com sintomas da doença. São três casos em Minas Gerais; dois no Rio de Janeiro; dois no Amazonas; dois no Rio Grande do Norte; um em São Paulo e um no Pará. O ministério diz que não há evidências de que o vírus da gripe suína esteja circulando no Brasil.

Automedicação

Um remédio que inibe a multiplicação de vírus da gripe está sumindo das farmácias. Mas a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) faz um alerta. “Não há motivo para correr às farmácias para tentar adquirir um medicamento. A automedicação é altamente prejudicial”, diz o diretor de portos e aeroportos da Anvisa José Agenor Álvares da Silva.

Basta um espirro e já tem gente que suspeita do pior. “O cidadão que não viajou, que não teve contato com ninguém proveniente dessas áreas, não tem que se preocupar agora”, garante o professor de doenças infecciosas da Universidade de Brasília, Cristiano Barros de Mello.

O Ministério da Saúde liberou um número do Disque-Saúde para tirar dúvidas da população sobre a gripe suína: 0800 611997.

Fiscalização

O governo brasileiro prometeu intensificar a fiscalização nos aeroportos. Todos os voos que chegam do México e dos Estados Unidos devem ser monitorados. A Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero) afirma que implantou planos de contigência em dez aeroportos do Brasil.

O assessor da Gerência de Portos e Aeroportos da Anvisa, Cristiano Gregis, diz que uma equipe se dirige a aeronaves que chegam de áreas afetadas e questiona os comissários de bordo sobre o trajeto e se alguém apresentou sintomas durante a viagem.

Gregis diz que quem vai viajar deve receber material informativo no check-in e por meio de avisos sonoros. "A Anvisa também conta com centro para atendimento de viajantes no aeroporto. Quem tiver dúvidas pode se dirigir até lá para esclarecimentos. É importante que as pessoas sigam as recomendações. Não há razão para pânico", afirma.

Os pacientes com sintomas da gripe suína devem ser encaminhados a hospitais preparados para atender esses casos. Para chegar à unidade de saúde, o viajante deve receber uma máscara cirúrgica e seguir em uma ambulância adequada.

Também há planos para contigência nos portos.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que as pessoas só viajem para o México se for absolutamente necessário.

(G1, 28/4).

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