domingo, 3 de novembro de 2013

Segurança: como os seus dados on-line estão sendo empacotados e vendidos

Estudo descreve em detalhes sobre o quão vital é a compra e venda dos nossos dados pessoais para o futuro da economia e da segurança do mundo livre.


A Associação de Marketing Direto divulgou na semana passada um relatório de 105 páginas detalhando o valor da Data Driven Marketing Economy (algo como Economia de Venda de Dados Dirigidos, ou simplesmente DDME), juntamente com alguns infográficos.

Escrito por acadêmicos das Universidades de Harvard e Columbia, o estudo descreve em detalhes impressionantes sobre o quão vital é a compra e venda dos nossos dados pessoais para o futuro da nossa economia e da segurança do mundo livre - e, portanto, deve ser livre de qualquer fiscalização do governo.

Perdoe-me se pareço um tanto cético. Os dados são, é claro, como oxigênio para a Internet, que não sobreviveria por muito tempo sem eles. Mas isso não significa que a informação não pode ou não deva ser regulamentada.

Primeiro, você tem que considerar a fonte. A Associação de Marketing Direto, do PR Group, representa os principais fornecedores de lixo eletrônico, telemarketing, catálogos de mala direta, e-mail spam, anúncios na Web e outras agressões à nossa privacidade pessoal (ou inversamente, materiais de marketing úteis que permitem aos consumidores fazer escolhas melhores sobre como gastar o seu dinheiro. Veja, posso ser justo quando eu quero).

Historicamente, a DMA se opôs firmemente a qualquer medida que restrinja as atividades de suas empresas associadas ou ofereça algum nível de controle para os consumidores. Assim, ela se opôs à lista Do Not Call, que é facilmente a mais bem-sucedida iniciativa pró-consumidor já promulgada pelo governo norte-americano.

Durante anos a DMA se opôs à legislação antispam e conseguiu refinar com sucesso o CAN-SPAM Act de 2003, ao ponto de se tornar quase inútil no processo, antecipando leis muito fortes promulgadas em mais de 30 estados.

Quando havia um clamor sobre cookies de rastreamento no final de 1990, a DMA gerou a Network Advertising Initiative, em uma tentativa de "autorregulamentar" a nascente indústria de publicidade na Web.

A Associação tem lutado para tentar reinar em corretores de dados e rastreadores da Web desde então, usando uma variedade de intermediários. Portanto, não é uma grande surpresa que o argumento da DMA possa ser resumido assim: vendas - bom, regulamentação de dados - ruim.

Dados-lixo vs Fast-food

De acordo com o relatório, a Economia de Venda de Dados Dirigidos gerou 156 bilhões de dólares em receita no ano passado, empregando mais de 675 mil pessoas. Cerca de 70% da receita provém da venda de ambos os dados pessoalmente identificáveis ​​e dados pseudônimos. Curiosamente, esses números são semelhantes aos da Indústria de Fast-food nos EUA, que gerou 160 bilhões dólares no ano passado e produziu pouco mais de 4 milhões de empregos.

Mas existem duas grandes diferenças entre dados-lixo e fast-food: a primeira é que você pode optar por caminhar por um McDonald's ou Burger King sem precisar entrar no local. E, se você entrar, provavelmente você pode pedir uma salada com chá gelado diet em vez de um hambúrguer jumbo com bacon extra, batatas fritas gigantes e um milkshake.

Já com o marketing de dados, você não tem muita escolha. Sim, você pode optar por medidas ridículas para deixar de fora alguns esquemas de marketing, mas você gastará muito tempo fazendo isso e nunca irá se livrar de todos eles. As empresas de marketing precisam oferecer opções não tão atrativas para que a FTC (Comissão Federal do Comércio) não pegue no pé delas, mas ninguém está obrigando-as a facilitar.

A outra grande diferença: o fast-food é altamente regulamentado. Isso porque ninguém quer pedir um Big Mac acompanhado de um McBotulismo. Os dados-lixo, porém, nem tanto. A menos que sejam uma agência de crédito ao consumidor ou estejam lidando de cuidados com a saúde ou dados financeiros, os comerciantes podem muito bem fazer o que diabos quiserem com as informações dos usuários, desde que fiquem dentro dos limites de suas políticas de privacidade incrivelmente densas e sempre maleáveis.

Gráficos 1 x 0 informação

Os infográficos que resumem o relatório fazem outras afirmações sobre os benefícios do marketing "responsável" de dados dirigidos, o que pode ser meio contraditório.

Por exemplo:

- Compartilhamento de dados leva a preços mais baixos. Embora seja verdade que a Internet revolucionou a "caça ao melhor negócio", isso não significa que você irá encontrar preços mais baixos. Na verdade, você pode muito bem ver preços mais altos com base em seus dados de perfil - especialmente se você usa um Mac.

- Falta de anúncios direcionados = a morte do "conteúdo livre". Sim, eles ainda estão pressionando essa tecla. É verdade que anúncios patrocinados oferecem de duas a três vezes mais receita do que os não direcionados - mas não está claro se esses dólares extras vão parar nos bolsos dos editores. Por fim, os sites podem ter que cobrar por conteúdo de qualquer modo - para o caso daquele anúncio de hotel não vingar.

- Anúncios têm bastante relevância. Isso é verdade. Mas eles também são bem bizarros, já que te seguem de site em site, geralmente exibindo itens que você não tem interesse algum em comprar. Pessoalmente, eu me sinto observado (lê-se stalkeado). 

- Varejistas online podem estocar uma ampla gama de produtos, que também são mais fáceis de encontrar. Também é verdade, mas eles não precisam de seus dados pessoais para fazer isso.

- As campanhas eleitorais estão usando grandes quantidades de dados para persuadir as pessoas a votar. Isto também é verdade, mas o nível em que as campanhas de Obama e Romney chegaram (principalmente a de Obama) também cruzam o limite do assustador.

Me segure se você já ouviu isso antes

Claro, o relatório da DMA não foi produzido para você ou eu. Ele foi feito para membros da equipe dos simpáticos congressistas, de modo que seus patrões poderiam mantê-los em uma audiência sobre a legislação de privacidade e dizer "mas o que acontece com os postos de trabalho? Será que ninguém pensa nos postos de trabalho?"

Aqui está, literalmente, a citação da Presidente da DMA, Linda A. Woollery:

"A questão é que a legislação - ou regulamentação - bem-intencionada mas mal -concebida que restringe o uso responsável dos dados prejudicaria a economia dos EUA", disse ela. "Isso teria um impacto de bilhões de dólares em receitas e em centenas de milhares de postos de trabalho, fazendo as pequenas empresas menos competitivas e sufocando a inovação em geral. No final, isso iria prejudicar os consumidores, limitando escolhas e aumentando os preços."

Esse relatório de 105 páginas diz absolutamente nada sobre a legislação ou regulamentação - sendo ela mal-concebida ou não. 

Não há realmente qualquer evidência de que nos dar mais controle sobre nossos dados (e não se enganem, são nossos os dados) prejudicaria de qualquer forma a economia de marketing de dados dirigidos, ou aumentaria os preços, ou sufocaria a inovação, ou custaria empregos. Nada, nada.

Se a regulamentação realmente mata as indústrias, então por que há um restaurante fast-food em cada esquina? Por que o McDonald's não exige o direito do uso de lodo rosa em vez de carne animal em seus lanches? Porque ele sabe que os consumidores precisam confiar que seus produtos não os deixarão doentes. 

Essas regulamentações, de fato, ajudam a indústria do fast-food, assim como fizeram com a embalagem de carne e com as indústrias farmacêuticas no século passado.

Agora, a indústria de dados precisa desenvolver um pouco dessa confiança. Os consumidores precisam acreditar que seus dados não serão usados contra eles ou os deixarão "doentes".

E não vão conseguir isso se continuarem com o mesmo discurso. Tudo o que queremos é "fazer do nosso jeito". Se eles podem fazer com hambúrgueres, certamente é possível com dados.

(IDG NOW)