sábado, 6 de abril de 2013

Abutre-barbudo, a ave que gosta de esqueletos


Como muitos biólogos que cresceram na era pré-internet, os livros que li durante a infância foram uma tremenda influência sobre minha formação e escolha profissional. Tenho memórias muito boas de uma coleção chamada Os Bichos, da editora Abril, e ainda tenho a edição de 1972 na minha estante. Sei que muitos colegas da minha geração também foram capturados por esses mesmos livros.

Dois abutres-barbudos Gypaetus barbatus procuram seu almoço no Parque Nacional Ordesa y Monte Perdido, nos Pirineus espanhóis.
Além de dar um gostinho sobre a diversidade da vida, essa coleção teve o efeito irreversível de me incentivar a viajar para ver todas aquelas espécies. E ao longo do tempo tenho colecionado minha lista de bichos de Os Bichos. Sempre há um gosto especial em satisfazer um antigo desejo de infância.


Uma das espécies que me atraía ao folhear aquela enciclopédia era o Gypaetus barbatus, conhecido por abutre-real ou abutre-barbado. Trata-se de uma ave de rapina com envergadura entre 2,3 e 2,8 metros (grande!), que se alimenta de ossos (!!!), tartarugas (!!!) e que, na coleção, aparece jogando um carneiro no abismo para comê-lo e perseguindo, com intenções gastronômicas, um moleque assustado enquanto um cachorro com cara aparvalhada corre atrás.

O abutre-barbado ou lammergeier (como é mais conhecido entre os bird-watchers) é um parente tão próximo dos abutres do Velho Mundo quanto dos gaviões, constituindo um grupo evolutivo distinto juntamente com o “abutre”-egípcio (Neophron percnopterus). Ambos têm em comum a ausência da calvície característica dos abutres “verdadeiros”. 

O abutre-barbudo é um bicho das montanhas. Ocorre em diferentes cadeias da Espanha e vai até o Tibete e oeste da China. Também vive nas montanhas Atlas do norte da África, nos picos da Etiópia e nos da África do Sul. Estes abutres já foram registrados vivendo a 7.300 metros de altura no Evereste, onde devem aproveitar os alpinistas que não conseguem voltar para casa. 

Refeição indigesta

A dieta desta ave é peculiar por ser composta entre 85 e 90% por ossos, mais particularmente a proteína que os forma e o tutano de seu interior. É a única ave especializada neste alimento. 

Essa dieta implica em um estilo de vida econômico, onde planar nas montanhas consome pouca energia e em uma reprodução lenta. A espécie tem um filhote a cada dois anos após a maturidade sexual ser atingida, que ocorre aos cinco anos de idade. Também é longeva, pode passar dos 40 anos. No seu comportamento sexual destaca-se ser comum que uma fêmea esteja pareada com dois machos, uma versão alada de Dona Flor. Ambos os machos ajudam a criar o único pimpolho até que chega à idade de voo. 

O estilo de vida peculiar exige espaço. Os abutres-barbudos ocorrem em baixas densidades, o que somado ao impacto humano tornou-os uma espécie rara. Estima-se que existam menos de 10 mil exemplares no planeta, o equivalente ao número de pessoas em um ou dois quarteirões de São Paulo.

O abutre-barbudo chega até a desprezar a carne de uma carcaça. Nesse caso, espera que outros abutres a limpem para então engolir os ossos que cabem na sua bocarra, muito maior do que parece na foto. Daí, seus ultra-elásticos esôfago e papo entram em ação unindo maquinário e química eficientes para digerir o alimento.

Ossos grandes demais, como um fêmur, exigem uma técnica especial. A ave segura o petisco de até 4 quilos (ou quase o seu peso) com os pés e decola. Em seguida, procura uma superfície dura onde larga o osso, quebrando-o. Então, é só descer e comer os caquinhos e o mocotó. Essa técnica pode levar um tempo para ser dominada por aves jovens, que chegam a precisar de 7 anos de aprendizado para descobrir como e onde mandar o projétil.

Tartarugas são um petisco especial, com as quais os abutres utilizam a mesma técnica - um uso inteligente da topografia como arma. Águias também agarram uma tartaruga e a jogam das alturas, caso da imperial (Aquila helíaca). Até hoje não se sabe ao certo se o poeta grego Aeschylus (525/524 BC – c. 456/455 B.C.), autor de Prometeu Acorrentado e outros clássicos, foi morto por uma tartaruga que caiu do céu ou se foi vítima de uma águia ou abutre-barbudo em um momento “ooops, errei” (embora muitos duvidem da história).

Abutres-barbudos podem usar suas garras (lembre-se, eles não são abutres típicos) para alçar outros tipos de presas vivas e lançá-las precipício abaixo. Há registros de hiraces, lebres, marmotas e lagartos-monitores mortos dessa maneira, e também de cabras-montesas, camurças e antílopes que caíram abismo abaixo com um empurrão, ou assustados por essas aves.

Imagine que você está tranquilo na crista da montanha, pensando na vida, e de repente um bicho desses dá um rasante ou mesmo uma asada em você. Um susto, um passo em falso e você vira almoço. Dizem as lendas que isso já aconteceu com pessoas, mas não há casos fidedignos registrados e os pesquisadores dizem que, se algo assim ocorreu, foi acidente. Tipo, primata e abutre esbarram-se no alto da montanha, a parte sem asas leva a pior. 

Ou seja, na coleção Os Bichos, a figura do garoto perseguido por um “abutre-real” com sangue nos olhos é história.

Caçados e famintos

Entretanto, essas histórias de abutres-reais perseguindo criancinhas e carneirinhos (lammergeier significa matador de cordeiros) conjugadas a uma aversão cultural a predadores levaram a espécie a ser perseguida e morta em diferentes regiões, especialmente na Europa. Além disso, os humanos caçam os mesmos grandes mamíferos que os abutres comem, o que reduz a quantidade de alimento disponível. Isso e mudanças nas regras da pecuária extensiva proibindo o descarte de carcaças a céu aberto (como aconteceu na União Europeia) resultou na extinção da espécie em muitos países como a Alemanha, Suíça, Áustria, Itália, Romênia, Grécia e Albânia.

Tempos mais civilizados resultaram na apreciação dos abutres-barbudos como as criaturas espetaculares que são, e não os monstros da lenda, e a perseguição foi reduzida. Embora sempre haja um cretino disposto a balear estes animais.
A partir de 1986, aves nascidas em cativeiro começaram a ser reintroduzidas nos Alpes da Áustria, França, Itália e Suíça, resultando no reestabelecimento de populações reprodutivas por lá. As reintroduções continuam até hoje, tocadas por ONGs como Vulture Conservation Foundation e estão reestabelecendo populações em regiões como a Andalusia, na Espanha. 

É bom lembrar que reintroduções estão sendo usadas, com muito sucesso, para reestabelecer populações de outros abutres na Europa. Sorte desses bichos. Ao contrário do Brasil, por lá não existe a rejeição a reintroduções comum entre os nossos “especialistas” sem experiência prática.

Espétaculo deslumbrante

No Kilimanjaro, na Tanzânia, finalmente consegui observar o meu primeiro exemplar de abutre-barbudo, enquanto escalaminhava a montanha. Contarei esta história em outra coluna. Mas a melhor experiência foi mesmo em janeiro deste ano, visitando o Parque Nacional Ordesa y Monte Perdido, nos Pirineus espanhóis, onde a população original está aumentando graças à proteção e manejo, que inclui o uso de “restaurantes”, locais onde se deposita as carcaças de animais mortos naturalmente.

Janeiro não é mesmo a temporada turística por lá e além das cidadezinhas vazias e pouquíssimo movimento, há estradas bloqueadas pela neve. Um dia, eu e minha esposa nos arriscamos na estradinha para a garganta de Escuain, que nos haviam informado estar fechada. A ideia era chegar ao lugar considerado o melhor da Europa para ver os quebrantahuesos, como os chamam por lá.

Não havia neve. Já perto do mirador de onde se abria um panorama incrível, avistamos o primeiro quebranta. E depois outro, e outro, e outro... Nós dois ficamos lá de boca aberta e, depois de recolher o queixo no chão, começamos a fotografar e observar o que acontecia através de nossos binóculos.

Ao fim, deveria haver pelo menos 20 abutres-barbudos e pelo menos três vezes esse número de grifos-comuns (Gyps gyps) circulando e eventualmente aterrissando no que, depois descobrimos, era uma carcaça colocada perto da estrada pelos funcionários do parque. Eles aproveitaram a reunião das aves para contá-las e checar a identidade de cada uma, já que boa parte carrega rádio-transmissores. Gentilmente, pediram-nos que respeitássemos a distância para que as aves pudessem comer.

Ali pude ver o resultado de um programa de conservação eficaz e como técnicas mão na massa, como suplementação alimentar, ajudam a restabelecer espécies ameaçadas. Tudo isso mantendo o devido monitoramento e sem esquecer o bom trato com os turistas. Foi de ficar pasmo ver o céu cheio dessas aves enormes e espetaculares, algumas carregando os ossos que iriam quebrar mais adiante. 

Talvez algum dia o mesmo manejo ativo traga araras, mutuns, harpias, jacutingas, papagaios e outros bichos extintos de volta aos nossos parques nacionais.


((oeco))